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Quando a empresa passa a investigar a si mesma: o novo papel do compliance na era das investigações corporativas
- Regulatory & Compliance
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Uma recente política do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) reforça uma mudança profunda na forma como crimes corporativos são investigados e tratados pelas autoridades. Por décadas, o modelo era relativamente claro: quando um crime ocorria, o governo investigava e a empresa reagia. Hoje, essa lógica mudou de forma significativa. Cada vez mais, espera-se que a própria empresa seja capaz de identificar, investigar e apresentar os fatos às autoridades. Em outras palavras, passamos de um modelo em que o governo investigava e a empresa respondia, para um cenário em que a empresa investiga e o governo realiza a validação.
Essa mudança altera profundamente o papel das investigações internas. Elas deixaram de ser apenas um instrumento de gestão de crise para se tornarem parte central da estratégia de enforcement das autoridades. O DOJ deixa claro que espera que as empresas sejam capazes de conduzir investigações internas robustas, identificar os indivíduos envolvidos em irregularidades, reconstruir os fatos e apresentar evidências confiáveis. Isso significa, na prática, que a organização precisa ser capaz de produzir relatórios investigativos consistentes, baseados em dados e evidências digitais.
O problema é que muitas empresas ainda não estão preparadas para esse novo cenário. Em grande parte das organizações, as áreas de compliance e jurídico ainda dependem quase totalmente de terceiros para conduzir investigações digitais. Muitos profissionais nunca tiveram contato direto com ferramentas de forense digital ou plataformas de eDiscovery. Quando surge uma investigação relevante, a empresa contrata consultores externos e passa a depender integralmente deles para coleta, análise e interpretação dos dados. Esse modelo, além de lento e caro, cria uma fragilidade evidente: quando o cliente não conhece as ferramentas e metodologias utilizadas, perde também sua capacidade de questionar, direcionar e avaliar criticamente o trabalho realizado. Infelizmente, essa dependência absoluta de terceiros é um problema muito mais comum do que se imagina.
Um aspecto central dessa nova realidade é a preservação e produção de dados. A política do DOJ deixa claro que as empresas precisam ser capazes de preservar documentos relevantes, coletar dados corporativos e produzir rapidamente evidências digitais. Isso inclui e-mails, mensagens de chat, documentos eletrônicos e dados armazenados em sistemas corporativos. Embora o documento não mencione explicitamente termos como eDiscovery ou digital forensics, a expectativa implícita é evidente: as organizações precisam ter capacidade técnica para lidar com grandes volumes de dados digitais e reconstruir fatos a partir dessas informações. Conceitos como information governance, litigation hold, coleta de dados e análise digital de comunicações passam a ser fundamentais para qualquer investigação corporativa.
Surpreendentemente, muitos profissionais de compliance ainda não dominam sequer o conceito prático de litigation hold — ou seja, a capacidade de preservar imediatamente dados relevantes de determinados colaboradores ou sistemas quando surge uma suspeita de irregularidade. Sem essa preservação adequada, evidências importantes podem simplesmente desaparecer. Nesse novo ambiente regulatório, a gestão de dados e a capacidade de preservá-los rapidamente tornam-se elementos críticos da governança corporativa.
Outro fator decisivo nesse novo modelo é a velocidade. Empresas que desejam obter benefícios no enforcement — como reduções significativas de penalidades ou até mesmo a não abertura de processo criminal — precisam agir rapidamente. Isso significa que investigações que antes poderiam durar anos agora precisam ser conduzidas em semanas. Nesse contexto, modelos tradicionais baseados em revisão manual de documentos tornam-se praticamente inviáveis. O volume de dados corporativos é simplesmente grande demais.
É exatamente por isso que cresce de forma acelerada o uso de tecnologias investigativas como Technology Assisted Review (TAR), inteligência artificial aplicada à revisão documental, analytics de comunicação, análise de chats, clustering de dados e reconstrução de timelines digitais. Essas ferramentas permitem analisar grandes volumes de informação em prazos compatíveis com as expectativas das autoridades. Mais do que acelerar a investigação, elas permitem identificar padrões de comportamento, reconstruir cadeias de comunicação e entender como determinadas decisões foram tomadas dentro da organização.
Isso se torna ainda mais relevante quando consideramos outro ponto central da política do DOJ: a responsabilização individual. Não basta mais afirmar que houve uma falha sistêmica ou um problema de controles internos. As autoridades querem entender quem sabia, quem autorizou, quem executou e quem eventualmente tentou ocultar a conduta irregular. Responder a essas perguntas exige reconstruir redes de comunicação, analisar interações entre colaboradores e compreender a sequência de eventos que levou à irregularidade. Mais uma vez, sem ferramentas tecnológicas adequadas, esse tipo de análise se torna extremamente difícil.
Nesse contexto, o papel do compliance também se transforma. Durante muito tempo, compliance foi visto principalmente como uma função preventiva — focada em políticas, treinamentos e controles. Hoje, além de prevenir, o compliance precisa ter capacidade investigativa real. Isso significa entender dados, saber como preservá-los, conhecer metodologias de investigação digital e compreender como tecnologias de análise podem ser utilizadas para reconstruir fatos.
Um ponto muitas vezes negligenciado é que essa capacidade não se desenvolve apenas em momentos de crise. Pelo contrário: ela precisa ser construída no dia a dia. Adotar e utilizar conceitos e ferramentas tecnológicas em casos simples — mesmo em situações rotineiras ou investigações menores — é fundamental para que a organização esteja preparada quando um caso complexo surgir. Essa prática cotidiana permite que a empresa desenvolva não apenas a infraestrutura necessária, mas também as habilidades profissionais de seus times. Sem essa experiência prática, quando surge uma investigação relevante, a organização simplesmente não está pronta.
Portanto, utilizar tecnologias investigativas apenas em grandes crises é um erro estratégico. É no uso cotidiano, em casos menores, que equipes aprendem a coletar dados corretamente, a estruturar análises, a interpretar resultados e a conduzir investigações baseadas em evidências digitais. Esse processo cria maturidade técnica, senso crítico e independência em relação a fornecedores externos.
Mesmo sem mencionar explicitamente inteligência artificial ou eDiscovery, a política do DOJ deixa implícito que o futuro das investigações corporativas depende cada vez mais da análise massiva de dados digitais e da capacidade de reconstruir fatos com rapidez e precisão. Não é coincidência que áreas como AI aplicada a investigações, eDiscovery analytics, digital forensics e information governance estejam crescendo rapidamente em todo o mundo.
No fim das contas, a grande mudança é cultural. Investigações internas deixaram de ser um evento extraordinário que ocorre apenas em grandes crises corporativas. Elas passaram a ser parte essencial da arquitetura moderna de compliance e governança. Empresas que desenvolverem essa capacidade estarão mais bem preparadas para lidar com riscos e responder às expectativas das autoridades. Já aquelas que continuarem dependentes de modelos tradicionais e excessivamente reativos provavelmente enfrentarão dificuldades cada vez maiores nesse novo ambiente regulatório.
Nesse contexto, contar com parceiros experientes pode fazer toda a diferença. Na Epiq, estamos preparados para apoiar empresas tanto pontualmente em investigações — das mais simples às mais complexas — quanto na transformação estrutural do ambiente investigativo corporativo. Trabalhamos combinando pessoas, processos e tecnologia, ajudando organizações a desenvolver capacidades investigativas sólidas e sustentáveis. Isso inclui desde coleta forense de dados e eDiscovery, até o uso de analytics avançado e inteligência artificial aplicada à investigação, sempre com soluções proporcionais à realidade e ao porte de cada empresa. Seja apoiando uma investigação específica, seja estruturando uma capacidade investigativa contínua dentro da organização, nosso objetivo é ajudar empresas a estarem preparadas para investigar com rapidez, rigor técnico e segurança.
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O conteúdo deste artigo é destinado apenas a fornecer informações gerais e não a oferecer aconselhamento ou opiniões jurídicas.